Wilco: uma música por disco

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Na seção Panorama, fazemos um passeio pela obra de um artista. Neste texto, escolhemos uma música representativa de cada disco de uma das grandes bandas americanas dos últimos anos, o Wilco.

Se hoje o Wilco é uma das bandas mais respeitadas do cenário musical norte-americano, é porque fez por merecer. Em seus mais de 20 anos de carreira, o grupo liderado por Jeff Tweedy conseguiu criar uma discografia diversa, criativa e relevante, sem deixar de soar como eles mesmos ou como os artistas que os influenciaram (e a conta aí é grande: Big Star, Byrds, Television, Velvet Underground, Neil Young, Replacements, Beatles etc. etc.).

A cada disco lançado, o Wilco alcançava um público maior, e sua popularidade crescia à medida que seu som se tornava mais inventivo e desafiador. Sem fazer muitas concessões e enfrentando problemas internos e externos para manter-se fiel à sua própria visão artística (na grande maioria das vezes, a visão do próprio Tweedy), a banda consolidou sua reputação com a crítica e estabeleceu uma base fiel de fãs, até chegar ao ponto atual. O Wilco hoje parece mais em paz consigo mesmo, mais seguro do que já fez e do que pode fazer. E, talvez o mais importante, tem o privilégio de ter conquistado um grau de controle da própria carreira que poucas bandas alcançam, ou sequer almejam, lançando seus discos pela própria gravadora (a dBpm) e organizando anualmente o próprio festival, o Solid Sound, no Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts.

De fato, o Wilco sempre agiu como uma banda profundamente compromissada com sua arte. As brigas e acordos com gravadoras na virada do século passado para este, a recusa em ceder a pressões de comercializar seu som e o investimento na própria autonomia enquanto músicos mostram como Tweedy e companhia estão dispostos a colocar a própria visão de mundo no que fazem, e a fazer bem feito.

A meu ver, podemos dividir essas duas décadas e pouquinho de banda de dois modos, a partir de referentes distintos. O primeiro seria por formação. Da estreia, em 1995, até a gravação do Yankee Hotel Foxtrot, disco mais importante de sua trajetória, a cara do Wilco é fortemente marcada pela presença de Jay Bennett. É também um período mais instável, com mudanças constantes de formação, desavenças entre membros e uma inquietação musical mais visível, que parece consumi-los de forma mais intensa (especialmente Tweedy).

Multi-instrumentista talentoso, Bennett foi o outro núcleo criativo do Wilco nos seus primeiros anos, e desenvolveu uma relação de crescimento e autodestruição mútua com Tweedy. Essa relação levou o grupo a outras sonoridades e a um interesse cada vez maior nas possibilidades de estúdio, mas desgastou-se a ponto da insustentabilidade no processo de feitura do Yankee Hotel Foxtrot. Bennett foi demitido da banda logo após as gravações desse álbum. Partiu para uma carreira solo, mas veio a falecer em 2009, enquanto dormia, aos 45 anos.

A partir de 2002, o Wilco começa a consolidar sua atual formação, dando início a essa segunda fase da carreira. Em 2004, formalizam a entrada de Mikael Jorgensen, que já excursionava com a banda há alguns anos, assumindo a responsabilidade dos teclados e sintetizadores. No mesmo ano, o Wilco ganha dois novos guitarristas: Pat Sansone, que também toca uma série de outros instrumentos, uma espécie de “quebra-galhos”, no bom sentido; e o incrível Nels Cline, veterano virtuoso dos circuitos do jazz e do rock alternativo. Some a eles o baterista Glenn Kotche, que havia entrado ainda em 2000, para as gravações do YHF, e o baixista John Stirratt, talvez o porto seguro do grupo, único que acompanha Tweedy desde a fundação. Já há 12 anos juntos, essa é a atual incarnação da banda: estável, centrada, madura e absolutamente comprometida com o próprio trabalho.

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A atual formação atual do Wilco: Pat Sansone, Mikael Jorgensen, Jeff Tweedy, Nels Cline, Glenn Kotche e John Stirrat

A outra forma de entender as diferentes fases do Wilco é por meio de suas sonoridades. E é aqui que entra a proposta deste texto: um passeio pelos principais discos da banda, pincelando uma canção emblemática de cada (e deixando outras sugestões também).

Em um primeiro momento, do disco de estreia, A.M., até o excelente Summerteeth, a banda transita gradualmente do chamado “alt-country”, estilo pelo qual ficou conhecido o grupo anterior de Tweedy, Uncle Tupelo, até uma mistura orgânica de rock alternativo, power pop e americana. O ponto de virada é justamente o Yankee Hotel Foxtrot, disco amplamente reconhecido e cultuado, que representa o começo de uma fase mais experimental, em que a banda parece testar os limites de cada canção. Essas intenções são levadas mais a fundo com o álbum seguinte, A Ghost Is Born, e coroadas com um grande registro ao vivo, Kicking Television, gravado em Chicago, terra natal.

Desde 2007, quando saiu o Sky Blue Sky, a sonoridade do grupo parece ter se aquietado um pouco. Cada vez mais, o Wilco soa como uma banda mais caseira e menos conflituosa. É como se as pressões internas tivessem baixado. Efeito da idade, talvez? Essa terceira fase dura até hoje e mostra, como nenhuma outra, o Wilco como um grupo de pessoas que gostam de tocar junto.

Ao longo de todos esses anos, Jeff Tweedy viu suas relações pessoais serem feitas e desfeitas, gente querida ir e vir, com o Wilco no meio disso tudo. Em grande parte, a historia da banda é também a história dele, mas, de forma alguma, é uma história contada sozinho. Músicos incríveis sempre emprestaram seus talentos às propostas do grupo para cada disco, cada período, contribuindo para a criação de uma obra que deixaria qualquer um orgulhoso. Relembrar ou conhecer esses momentos é uma experiência recompensadora, e um lembrete de que o Wilco é uma das melhores bandas que tivemos nos últimos anos.

Passenger Side” – A.M. (1995)

Na esteira do Uncle Tupelo, o Wilco lança seu primeiro disco ainda fortemente apegado ao country alternativo da banda anterior. É uma fase menos experimental, mais jovem e despreocupada, que a apresentação acima captura bem. Muita gente desconsidera o A.M. por sua simplicidade, mas é tudo tão bem feitinho ali que não ouvir é sair perdendo. “Passenger Side” é minha preferida, aqui com direito a chapéu de cowboy e uma virada punk no final, duas facetas de Tweedy e companhia na época.

Ouça também: “Casino Queen”, “I Must Be High”, “Box Full of Letters”

Outtasite (Outta Mind)” – Being There (1996)

Como mostra esse clipe deveras, hmm, radical?, “Outtasite (Outta Mind)” mantém o espírito festivo e meio inconsequente do A.M., mas o excelente Being There começa a apontar outros caminhos, exibindo uma banda cheia de ideias e talentos. A melancolia já assume as rédeas de grande parte desse álbum duplo, mas sem deixar claro que se tornaria a principal chave operante de Jeff Tweedy nos anos seguintes – o sentimento que ele melhor transmite e que, aparentemente, mais o inspira. A alcoólica “Outtasite” foi o grande hit do Wilco até a chegada da fase mais madura, no final dos 2000, e a imagem da banda jovem ainda é a pintura que fica desse 1996.

Ouça também: “Monday”, “Misunderstood”, “Say You Miss Me”, “Sunken Treasure”, “Red-Eyed and Blue”

California Stars” – Mermaid Avenue (1998)

“California Stars” poderia ter sido um ponto fora da curva, mas se consolidou como uma das preferidas dos fãs. Nascida de um projeto colaborativo com o compositor britânico Billy Bragg, é um dos poucos sucessos da banda que não tem letra do próprio Jeff Tweedy. Incumbidos da tarefa de musicar canções inacabadas deixadas pelo lendário Woody Guthrie, Bragg e o Wilco optaram por caminhos distintos: enquanto o britânico é mais reverente ao material original, Tweedy e Bennett oferecem uma roupagem mais próxima do som que eles mesmos faziam na época. O resultado é harmônico, apesar das diferenças. Os volumes seguintes seguem a mesma dinâmica, mas a impressão é de que o fino do projeto ficou mesmo para o primeiro disco. Mas quem gosta do Mermaid I dificilmente desgosta do II e do III. São todos bons para ouvir no domingo de manhã.

Ouça também: “Hesitating Beauty”, “Hoodoo Voodoo”, “The Unwelcome Guest”

Nos outros Mermaid Avenue: “Airline to Heaven”, “Remember the Mountain Bed”, “Listening to the Wind that Blows”, “When the Roses Bloom Again”

A Shot in the Arm” – Summerteeth (1999)

Atualmente, Summerteeth é meu disco preferido do Wilco, justamente por registrar o momento de transição da banda entre sua sonoridade mais direta e uma abordagem mais experimental e inventiva. Um dos singles, “A Shot in the Arm” reúne muito do que o Wilco tem de melhor: o power pop distorcido, a oscilação entre o otimismo e o lamento, aquela melancolia que deixa gosto na língua. Na sua ambiguidade entre a injeção de ânimo e a de drogas, representa um momento fundamental da banda, em que Tweedy e Bennett mergulhavam fundo em um universo próprio compartilhado em estúdio, deixando a mente voar alto e consumindo mais comprimidos do que deveriam, uma sintonia simultaneamente criativa e destrutiva.

Ouça também: “I’m Always in Love”, “Summer Teeth”, “Via Chicago”, “We’re Just Friends”, “She’s a Jar”, “How to Fight Loneliness”

I Am Trying to Break Your Heart” – Yankee Hotel Foxtrot (2002)

Muito já foi dito sobre como o Yankee Hotel Foxtrot funciona como uma espécie de alegoria para a economia da música nos anos 2000, com as gravadoras perdidas com a distribuição digital e o despontamento do streaming como uma prática impossível de ser ignorada. Yankee Hotel Foxtrot é também o registro do Wilco em seu momento mais tempestuoso, quando o relacionamento entre Tweedy e Bennett chega ao seu limite, ao mesmo tempo que as experimentações em estúdio atingem o ápice criativo. “I Am Trying to Break Your Heart”, que dá nome a um documentário que registra justamente esse conflito interno da banda, opera tanto como introdução a uma nova fase quanto como uma despedida daquele Wilco de antes. Uma canção definitiva para o grupo, justamente por sua transitoriedade. “What was I thinking when I said it didn’t hurt”.

Ouça também: “Jesus, Etc.”, “Poor Places”, “I’m the Man Who Loves You”, “Ashes of American Flags”, “Radio Cure”

At Least That’s What You Said” – A Ghost is Born (2004)

A princípio, considerei escolher aqui “Spiders (Kidsmoke)”, um longo exercício rítmico de tensão construída, possivelmente inspirado em Television e nas bandas do Krautrock, que acaba representando uma certa tendência do Wilco experimental. Mas A Ghost Is Born me parece um disco mais soturno, gravado em um momento difícil da vida de Tweedy, de drogas, cansaço, ansiedade e expectativa, por isso optei pela música que abre o disco. “At Least That’s What You Said” é arrependida em seu início até engrenar em uma investida de guitarra a la Neil Young – na versão acima, favorecida pela potência do então recém-chegado Nels Cline. (p.s.: não deixe de ouvir “Spiders” não, ela é muito boa também!)

Ouça também: “Spiders (Kidsmoke)”, “Hummingbird”, “At Least That’s What You Said”, “Handshake Drugs”, “Company in My Back”, “Hell Is Chrome”, “The Late Greats”

Please Be Patient with Me” – Sky Blue Sky (2007)

Sky Blue Sky é o primeiro disco gravado com a formação atual da banda, e já demonstra uma postura diferente em relação aos seus dois antecessores, inaugurando uma fase mais madura, especialmente para Tweedy. O Wilco aqui já havia passado por muita coisa, enfrentado brigas e sobrevivido. Talvez por isso os registros daqui em diante tragam uma certa contemplação que só parece vir com a idade. “Please Be Patient with Me” é uma canção gentil e vulnerável (e um pouco egoísta também?), afastada da verve destrutiva de outros momentos, que parece mostrar um desejo de descanso e assentamento.

Ouça também: “Hate It Here”, “Impossible Germany”, “What Light”, “Walken”

Wilco (The Song)” – Wilco (The Album) (2009)

Há quanto tempo o Wilco não soava tão leve? Bem-humorada, “Wilco” (a canção) marca um momento em que a banda consegue olhar para seu legado de uma perspectiva um pouco mais afastada, capaz de entender o que já foi feito e o que quer fazer de verdade a partir de agora. Se em outros momentos, o grupo parecia compor por necessidade, aqui eles já parecem construir as músicas pelo prazer de testar ideias, sem pressão. Wilco (o disco) não é dos mais brilhantes do catálogo, e até tem outras músicas mais legais que a do vídeo, mas acho simbólico que ambos – disco e música – levem o nome da banda. É um gesto metalinguístico em uma fase que já soa bastante autorreflexiva.

Ouça também: “You and I”, “Bull Black Nova”, “I’ll Fight”

One Sunday Morning (Song for Jane Smiley’s Boyfriend)” – The Whole Love (2011)

Mesmo com seus extravagantes 12 minutos, “One Sunday Morning” soa como uma canção típica do Wilco. No fim das contas, sua duração acaba sendo a última surpresa em um disco cheio delas. No meio dos truques desse The Whole Love, “One Sunday Morning” soa como o núcleo duradouro, e, na melhor das hipóteses, sua extensão seja simplesmente um sinal da futura longevidade da banda. É como se eles pudessem tocar isso para sempre. Olhando em retrospecto, talvez um dos grandes talentos do Wilco seja a capacidade de juntar humores e influências diversas para criar obras versáteis e coesas. Nesse ponto da carreira, do ataque sonoro de “Art of Almost” à contemplação soturna de “Black Moon”, essa é uma habilidade que eles próprios parecem reconhecer. Livre, The Whole Love é, não a toa, o primeiro álbum do grupo em seu próprio selo, o dBpm.

Ouça também: “Art of Almost”, “Black Moon”, “I Might”, “Dawned on Me”

Random Name Generator” – Star Wars (2015)

“Despreocupado” talvez seja o adjetivo que melhor defina a atual fase do Wilco. Não há mais o que provar, nem necessidade de testar os limites das canções. Há expectativa, muita, mas a impressão é que ninguém quer tornar isso um problema. Acho que foi em uma entrevista recente que o Jeff Tweedy disse que não consegue se levar tão a sério quanto o Radiohead. E “Random Name Generator” ilustra bem essa postura: um riff marcante, um título curioso… É uma música divertida, que soa como se a banda estivesse brincando de fazer o que gosta em estúdio, sem pretensão de romper com qualquer coisa que seja.

Ouça também: “Taste the Ceiling”, “Magnetized”, “Where Do I Begin”, “Pickled Ginger”

Someone to Lose” – Schmilco (2016)

Gravado nas mesmas sessões que deram origem ao Star Wars, Schmilco mantém o tom descompromissado do seu antecessor, mas opta por um repertório mais acústico. “Someone to Lose” e “If I Ever Was a Child” são as melhores representações desse estado de espírito relaxado: o Wilco em seu modo mais família, tocando de boa depois de uma macorranada, em um domingo de céu claro e aberto. Uma banda consciente de sua própria trajetória, que agora prefere tocar o barco em águas mansas. Os próximos passos de Tweedy e companhia, parece que nem eles mesmos sabem. Mas, por hora, ninguém quer mesmo saber. Então deixa assim, e o depois a gente pensa quando for a hora.

Ouça também: “If I Ever Was Child”, “Normal American Kids”, “Cry All Day”

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