Melhores músicas de 2016 – parte 1

Meu lado supersticioso está levemente chateado de começar um ano novo escrevendo sobre o ano velho. Mas tudo bem, até ele sabe como considero importante manter esse tipo de registro. Mais do que simplesmente contar a vocês o que mais gostei em 2016, vale o esforço de tentar fazer o balanço de um ano inacreditavelmente tumultuado no noticiário, mas muito prolífico de boa arte. De tudo legal que tive a oportunidade de conhecer nos últimos meses, essa é minha carinhosa seleção.

Começo com as músicas. Escolhi 40, entre nacionais e internacionais, com a regra de deixar só uma de cada artista. Tudo posto em ordem alfabética, para não dar ao meu coração a tarefa árdua de pesar gostos e experiências logo nesse pontapé de ano. Vamos lá:

“Adore” – Savages

A postura afirmativa e questionadora combinada com o instrumental sombrio da banda transformam “Adore” em uma espécie de mantra crescente, que pausa para encarar antes de voltar com um final apoteótico.

“Alaska” – Maggie Rogers

As caretas do Pharrell podem ter trazido os ouvidos do mundo até a jovem Maggie, mas já estão fadadas a se tornarem apenas mais um meme entre bilhões na internet. Desde agora, o que fica é essa joia de canção, que combina de maneira original a música folk do norte estadunidense com batidas eletrônicas, tudo de forma orgânica e delicada, invocando com naturalidade o arsenal imagético da América selvagem. Fora esse vocal, que é como um sopro suave de vento por entre as sombras das árvores.

“Because I’m Me” – The Avalanches

Quando, depois de 16 anos no silêncio, esse coletivo australiano soltou “Frankie Sinatra” como single do disco novo, todo mundo pensou: “ih, lá vem merda”. Felizmente, era só alarme falso. “Because I’m Me” é só uma das pérolas do ótimo Wildflowers, e ainda vem com esse clipe bonitinho demais de lambuja.

“Bubblegum” – Mystery Jets

Esperançosa e animada, essa canção dos britânicos do Mystery Jets tem um nome muito propício: é grudenta e doce como um chiclete. Qualquer dia desses ela aparece embalando uma cena redentora de algum seriado qualquer.

“Cadmium” – Pinegrove

Uma das músicas que mais ouvi em 2016, “Cadmium” tem uma progressão gentil e letras evasivas, cantadas pela voz desengonçada do compositor e vocalista Evan Stephens Hall. Soa, de certa forma, como um resquício de mágoa, mas sem violência e até com um certo tom de nostalgia, talvez. Difícil explicar essa.

“Come Down” – Anderson .Paak

O hip hop funkeado de Paak é feito para tirar qualquer corpo da inércia. Por trás de uma linha marcante de baixo está também uma produção criativa, feita pelo próprio Paak (que é baterista), onde tudo se encaixa do jeito certo. Até um sample do hino nacional de Israel.

“Corpo Vão” – Metá Metá

Um dos pontos altos de um disco impecável, “Corpo Vão” é o Metá Metá em potência máxima. No diálogo que vem estabelecendo entre rock, jazz e matrizes africanas, a banda arma aqui um ataque frontal, um transe louco impulsionado pelos gritos incríveis da Juçara Marçal.

“Don’t Touch My Hair” – Solange

É preciso estilo para botar o dedo na cara com essa serenidade. Indo na mesma direção politizada e empoderadora de sua irmã, Solange escolhe um caminho completamente diferente, menos egocêntrico e ostentoso, com resultado impressionantes. Não é preciso berrar afinadamente para ser diva.

“Drive It Like You Stole It” – Sing Street

Enquanto algumas músicas soam nostálgicas, outras o são descaradamente. Todo o filme Sing Street, uma das surpresas mais agradáveis do ano, brinca com pastiches de hits e tendências dos anos 80, mas é com “Drive It Like You Stole It”, sua peça-chave e principal mensagem, que a brincadeira te faz parar de sorrir por um momento para simplesmente pensar: “nossa, isso é bom pra caramba”.

“Drone Bomb Me” – Anohni

Uma canção de amor na perspectiva de uma garota afegã de 9 anos que vê a família ser morta por uma bomba lançada de um drone. É assim que a Anohni descreveu esse single, político e emotivo como todo o seu álbum. Ancorada em uma produção de altíssimo nível do Hudson Mohawke com o Oneohtrix Point Never, “Drone Bomb Me” tem uma mensagem forte e urgente, fora esse clipe lindo.

“Drunk Drivers / Killer Whales” – Car Seat Headrest

É longa a linhagem indie rock que trata das durezas de passar da adolescência para a vida adulta. Will Toledo, o cabeça do Car Seat Headrest, é o mais novo expoente dessa árvore genealógica, e tem carregado a bandeira com originalidade e ambição. “Drunk Drivers / Killer Whales” talvez seja sua melhor música até hoje, uma reflexão alcoolizada na madrugada, que passa pelos problemas de toda uma geração (“There’s no comfort in responsibility”) até alcançar um refrão explosivo, inspirado nas baleias orcas mantidas em cativeiro.

“Freedom” – Beyoncé

Beyoncé compõe, age, fala, sorri e é tratada como uma divindade da música pop americana, uma espécie de avatar da mulher negra forte. E “Freedom” é uma dessas músicas em que ela assume explicitamente esse papel, buscando canalizar em si própria o sofrimento das mulheres negras e a necessidade, ainda hoje, do grito de liberdade. Que uma música com essa postura venha em seu disco mais abertamente pessoal é uma mostra de seu ego e sua confiança. Que o disco tenha feito tanto sucesso, de crítica e público, é uma prova de seu poder e talento.

“Golden Days” – Whitney

“Golden Days” é uma dessas músicas ensolaradas que traz uma nostalgia boa para dentro do peito. A letra tem algo de melancólico, mas a batida leve e tranquila faz com que essa seja uma das escutas mais agradáveis do ano.

“How Does It Feel” – Kamaiyah

“I’ve been broke all my life / Now wonder / How does it feel to be rich? / (…) How does it feel to just live? (uh-oo-ou)”. Sério, como não se identificar? Voa alto, Kamaiyah!

“I Can’t Give Everything Away” – David Bowie

A última música do último disco de Bowie já traz em si uma imensa carga simbólica, mas a repetição emocionada do título-refrão se mostra um lembrete perene do comprometimento desse grande artista com sua própria arte. O feiticeiro não revela seus truques. Podemos insistir, mas Bowie sempre negará, continuamente, até o fim.

“I Have Been to the Mountain” – Kevin Morby

Com seu título inspirado em um discurso de Martin Luther King, “I Have Been to the Mountain” é uma canção de protesto feita à maneira do seu autor. Não segue o padrão super tradicional de outras canções folk de protesto, mas há uma pulsação que te move na batida do violão. Além disso, é dedicada a Eric Garner, cuja morte incitou uma série de protestos contra a violência policial nos EUA.

“I Need a Forest Fire” – James Blake

O desejo de cura guia essa parceria entre James Blake e Bon Iver, resultando em uma canção bonita e delicada, como é característica de ambos. Tratando de um relacionamento já desgastado, a solução proposta é queimar a floresta para que ela possa nascer de novo de suas próprias cinzas. Resta a dúvida se a floresta que se ergue é uma nova ou a mesma de antes, restaurada.

“I Need You” – Nick Cave and the Bad Seeds

O momento mais poderoso de um disco bastante intenso, “I Need You” é um lamento doloroso sobre a perda de uma pessoa querida. A canção foi gravada poucos dias depois da morte do filho de Cave, Arthur, que caiu do alto de um penhasco. Ele tinha 15 anos.

“Ivy” – Frank Ocean

Colocada no início do disco, “Ivy” funciona de maneira similar à “Thinkin Bout You“, um dos grandes hits de Ocean no trabalho anterior. Sua vulnerabilidade faz com que o ouvinte também baixe suas defesas e o convida a ouvir com atenção as dores de um amor da juventude que não existe mais. Construída para parecer um sonho, “Ivy” vai se desconstruindo até o momento em que a voz de Ocean começa a ficar distorcida demais. Hora de acordar.

“Just Another Face” – Modern Baseball

Coração machucado, letras lamuriosas, depressão e um refrão catártico. Todas as cores da palheta básica do emo, pintadas com a honestidade típica do gênero e qualidade exemplar. Disco a disco, os meninos do Modern Baseball vão se tornando mestres no próprio jogo.

Confira também a segunda parte da lista.

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