Melhores músicas de 2016 – parte 2

Dando sequência às minhas 40 músicas favoritas de 2016, segue aqui a segunda metade. Lembrando as regras: uma de cada artista, ordem alfabética, nacionais e internacionais tudo junto.

A primeira parte você pode ver aqui.

“L.A. Girlz” – Weezer

Há quanto tempo o Weezer não soava tão Weezer assim? “L.A. Girlz” (e o resto do disco) é um retorno à boa forma, possivelmente o mais próximo que a banda chegou de replicar seus grandes momentos dos clássicos Blue Album e Pinkerton nesses últimos 20 anos.

“Lucro: Descomprimindo” – BaianaSystem

“Lucro” é um dos melhores momentos do disco cheio de malemolência lançado pelo BaianaSystem em 2016, o Duas Cidades. A crítica à “speculação mobiliária” é só um adendo nessa levada que tem muito da tradição das guitarras baianas, juntadas com algo de dub e outros estilos afins, tudo bem costuradinho pela trupe e guiado pela voz marcante do capitão Russo Passapusso.

“Melhor do que Parece” – O Terno

Difícil dissociar “Melhor do que Parece” do show realizado pelo Terno aqui em Belo Horizonte em meados de outubro. Foi uma surpresa muito positiva ver a casa A Autêntica lotada, um tanto de gente jovem superfeliz de ver a banda, com as músicas todas na ponta da língua. Pensei comigo que o sucesso dos meninos é merecido, e que a banda só melhora a cada disco. E essa canção, uma pequena reflexão sobre o estado das coisas, mostra de forma clara a evolução do grupo e o estado da arte de sua música, que, apesar de tudo já mostrado, ainda tem o mérito de parecer guardar um grande potencial.

“Moth to the Flame” – Chairlift

Caroline Polachek, dona da voz e dos sintetizadores do Chairlift, conta que fez essa música logo após finalizar o disco anterior, Something, como forma de experimentar uma sonoridade mais próxima do house. Era um teste descompromissado, que acabou caindo no gosto do engenheiro de som e foi retrabalhada até virar esse synthpop dançante. Curiosamente, o Metallica também lançou uma música com esse mesmo nome em 2016. As duas não poderiam ser mais diferentes.

“Nattesferd” – Kvelertak

Enquanto críticos e comentaristas de YouTube tentam categorizar o som pesado do Kvelertak, esse sexteto norueguês – que canta em norueguês! – prefere continuar sua mistura de gêneros pesados para fazer canções empolgantes, prontas para os palcos dos grandes festivais. Parece que “Nattesferd” pode ser traduzido como “viagem noturna”, ou algo próximo disso, e se o Google Translator estiver de fato correto, o nome é mais que propício, com esse riff que remete a um Steppenwolf no 220, acelerando escuridão adentro com espírito de guerreiro viking dentro do peito.

“On Hold” – The xx

Lançado no início de novembro, o single novo do xx vem na esteira do trabalho solo recente de seu produtor e DJ Jamie Smith (que didaticamente assina Jamie xx). Com uma batida mais dançante, “On Hold” aponta outra direção para o trio, sem que eles percam sua sonoridade característica, e ainda faz um sample inusitadíssimo de Hall & Oates, olha só procê ver.

“Où Va le Monde” – La Femme

“Où Va le Monde” traz um ar indie ao pop francês, soando moderna sem necessariamente representar uma ruptura. É um hit global pronto, de letras simples e certeiras, guitarra tarantinesca de surf rock que se repete ciclicamente e uma batidinha que deixa o corpo balançando de levinho até o fim.

“Outsiders” – Suede

O Suede acabou entrando em um pacotão que se convencionou chamar de britpop no anos 90, mas seu som é diferente de outros contemporâneos como Oasis e Blur. E “Outsiders” mostra que a banda de Brett Anderson envelheceu com estilo, mantendo a dramaticidade nos vocais e o excelente trabalho de guitarras, que, aqui, soam como se estivessem se sufocando aos poucos, se contorcendo na escuridão da própria canção até aceitar o próprio destino.

“Same Drugs” – Chance the Rapper

Nessa canção agridoce, Chance fala sobre um relacionamento antigo que não funciona mais: cada um seguiu seu caminho e a afinidade que existia, os gostos compartilhados, são só lembrança do passado agora. A música faz uma série de referências à história de Peter Pan, com Chance no papel principal, ainda voando, ainda sonhador, enquanto a jovem Wendy parece ter trocado de drogas. Mas, mesmo sendo claramente nostálgica, “Same Drugs” se encerra de modo condescendente, com o que parece ser uma mensagem de Chance para sua filha: “Don’t you color out / Don’t you bleed on out / Stay in the line, stay in the line / Dandelion”.

“Sister” – Angel Olsen

Peça central do terceiro disco de Angel Olsen, “Sister” se mostra uma canção profundamente subjetiva, de modo que é difícil compreender com quem ou de quem Olsen está falando. A irmã que dá título à música poderia ser uma amiga, um relacionamento amoroso ou até uma projeção que Olsen faz de si mesma. A única coisa clara é que se trata de uma mulher, e a cantora parece sentir falta desse alguém. Olsen soa melancólica e solitária durante toda a canção (ela passa o clipe todo sozinha) até chegar a uma última ponderação, inconclusiva, “All my life I thought I’d change”, que abre o caminho para um maravilhoso solo a la Crazy Horse. Mais madura, Angel Olsen nunca soou melhor.

“O Sol Não Dá Ré” – Djalma Não Entende de Política

Nessa composição do meu grande amigo Terêncio de Oliveira, o Djalma dá uma leve guinada para outro tipo de pop, sem deixar de lado a ironia e a festividade que lhes são tão definidoras. “O Sol Não Dá Ré” não é a música que vai tirar todo mundo do chão nos shows, mas é um dos registros que melhor atesta o talento da banda nesse gostoso disco de estreia, sua vontade de fazer bem feito e seu potencial – e que também me faz pensar que tipo de som sairia se o Djalma deixasse só um pouquinho a pose zoeira de lado.

“Sonâmbula” – Iara Rennó

Das muitas músicas boas que a Iara Rennó soltou em seus discos irmãos, Arco e Flecha, essa é a mais divertida. Com uma batida que me lembra “Morto Muito Louco“, do Bonde do Tigrão, Rennó conduz um sacode dançante, que é também um sacode do tipo “acorda pra vida, menina”, um chamado para deixar o sonambulismo bêbado de lado, “vestir a roupa da coragem” e encarar os desafios de frente.

“Sun City Creeps” – Woods

A arte de capa desse single do Woods dá o tom dia de los muertos da música, convocando um espírito mariachi para passear pelo deserto escaldante, entre cactos, lagartos e bolas de feno esvoaçantes, com direito ainda a um inspirado solo de guitarra.

“Taken” – Anna Meredith

Talvez a mais esquisitinha das escolhas dessa lista, “Taken” é o destaque do disco de estreia da compositora britânica Anna Meredith, que, sabe-se lá como, encontrou seu caminho da formação musical clássica até essa tumultuada e divertida canção eletrônica, que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que é melhor nem tentar descrever. Mais fácil ouvir mesmo.

“Time Moves Slow” – BadBadNotGood

O BadBadNotGood é um grupo de jazz canadense que ganhou certa notoriedade por fazer versões de músicas de hip hop, mas, recentemente, têm investido mais em composições próprias. Essa conta com a poderosa voz de Sam Herring, do Future Islands, para dar profundidade e drama à história de um amor terminado, mas ainda não cicatrizado. (por algum motivo, existe um clipe para essa música com cenas calientes do filme Faroeste Caboclo… achei inusitado, então fica o registro)

“Treaty” – Leonard Cohen

“Treaty” soa como o Cohen dos anos 60, daquela sequência maravilhosa de discos que o transformou no compositor lendário que é. Uma reflexão soturna sobre um amor nunca concretizado, conduzida com a elegância de sempre pela voz madura do bardo canadense. No fim do disco, “Treaty” é retomada com um prelúdio orquestral para soar como um encerramento um pouco mais pomposo. Mas não há despedidas suficientes para Cohen. O que resta, então, é mais uma de suas bênçãos, um legado a altura.

“True Love Waits” – Radiohead

A primeira vez que o Radiohead tocou “True Love Waits” para o público foi em 1995. Duas décadas depois, ela encontra seu registro definitivo como a faixa de encerramento de mais um disco sensível e brilhante da banda, em uma versão mais lenta, conduzida no piano. À luz do término do relacionamento de Thom Yorke com sua esposa após 23 anos juntos, “True Love Waits” adquiriu novos contornos melancólicos. Com a morte dela no fim de dezembro, por câncer, se tornou um sofrido adeus e uma dedicatória. Diante de tudo, “True Love Waits” parece simbolizar a conclusão de um tempo, um último pedido entristecido que, esperamos, abra caminho para um novo dia.

“Ultralight Beam” – Kanye West

A cada dia que passa, torna-se mais difícil gostar de Kanye West. Cagada após cagada, não dá mais nem para chamá-lo de polêmico: babaca é o mínimo. Ainda assim, não dá para negar que ele é um dos produtores de hip hop mais criativos de sua geração e um artista corajoso, mesmo que sua coragem seja um caminhão desgovernado de inconsequência, ego inflado e, ao que tudo indica, loucura real e verdadeira. “Ultralight Beam” é megalomaníaca como West, e busca no gospel um pedido de redenção. Destaque para os versos matadores do Chance the Rapper.

“Unconditional Love” – Esperanza Spalding

A menina prodígio Esperanza Spalding botou a carreira em outros rumos com seu último disco, partindo de um jazz pop mais tradicional para um estilo mais inventivo, alternativo, fundido com outras influências musicais. “Unconditional Love” não é a canção que melhor representa esse ponto de virada, mas é a mais gostosa de ouvir desse trabalho: a voz agradável de Spalding convidando a viver um amor condicional vale mais que qualquer estripulia instrumental.

“Your Best American Girl” – Mitski

Mitski escolha uma das estruturas clássicas do rock alternativo (quieto, alto, quieto) para refletir sobre um amor que não tinha como dar certo, ainda que ela quisesse muito. Porém, para além de um lamento, “Your Best American Girl” é sobretudo uma canção de autoaceitação, que ganha mais segurança a cada refrão cantado (primeiro “I think I do”, depois “I finally do”). No processo de amadurecer e descobrir mais sobre si mesma, Mitski desenha a mesma imagem do clipe: sozinha com sua guitarra, ela pode estar magoada, mas, em paz consigo mesma, a vitória é sua.

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