Séries como projetos de longo prazo

Há algumas semanas, depois de uns quatro ou cinco longos anos, eu terminei de assistir todos os episódios de Breaking Bad. Sem dúvidas, uma das melhores séries que já vi. E a gente poderia comentar aqui sobre toda a atenção que o roteiro dá ao desenvolvimento de seus personagens, especialmente aos dois protagonistas; sobre a atuação brilhante de todo o elenco; sobre a questão cíclica que perpassa a trama, a forma como elementos presentes se conectam a eventos passados e o modo como a série utiliza recorrentemente esse jogo de autorreferência; sobre a fotografia, linda, disposta a fazer aquilo que boa parte das séries de TV não estavam antes de Breaking Bad. Enfim, há muita coisa a ser dita sobre Breaking Bad, e boa parte delas já deve estar aí em outros cantos da internet, mas eu gostaria de olhar para outro aspecto, mais particular.

Séries de TV geralmente são projetos longos. As mais bem sucedidas duram cinco, seis, sete temporadas. Não é algo que você chega ao final com tanta facilidade, mesmo nesses tempos de binge-watching. É preciso certa dose de comprometimento, nem que seja para passar 40 horas do fim de semana pregado no sofá ou na cama.

Existe, portanto, algo nessas narrativas que faz com que a gente continue voltando a elas. Afinal, esse comprometimento não é um gesto absolutamente unilateral, certo? A dedicação é subjetiva, mas o interesse surge da troca: abrir-se para a narrativa a fim de, aos poucos, episódio a episódio, encontrar o que ela traz para você. O processo pode até ser decepcionante, ocasionalmente. Completistas seguirão até o fim, os mais desapegados abandonam a viagem no meio do caminho. Mas há sempre a possibilidade do fascínio. O envolvimento tão profundo que não conseguimos soltar a mão daquela história, o desejo sincero de saber o que vem depois, a compaixão pelo personagem, o gosto da companhia, o desfrute da narrativa. Não é isso que procuramos em cada estreia de temporada, em cada decisão de começar uma série nova?

Breaking Bad, ao mesmo, me fascinava e me afastava. Fascinava pelo roteiro bem elaborado, pela tensão crescente, pela observação atenta das motivações e anseios de seus personagens, bem como das consequências de suas escolhas. Acompanhar a transformação gradual de Walter White, professor de química com câncer terminal, em um poderoso fabricante de metanfetamina não era necessariamente um deleite, mas a curiosidade era inevitável. A trama é pesada, e muitas vezes me deixava mal. Ao terminar um episódio, minha sensação era de voltar a respirar depois de 20 minutos de apneia, ou de sentir alguém enfim soltar os dedos fortemente prensados contra os músculos dos meus ombros. Dependendo do dia, um episódio só era a conta.

Esse tipo de sensação se tornou um fator de afastamento. Fiquei longos períodos sem ver a série, mesmo com os episódios ali disponíveis, mesmo tendo parado no meio de uma temporada. Simplesmente, não era todo dia que eu queria ver Breaking Bad. Por outro lado, nunca tive interesse em abandoná-la. Pelo contrário, como já disse, a vontade de saber o que viria a seguir era inevitável. E por mais que eu adiasse um retorno, inúmeras vezes eu me vi pensando naquela narrativa. A história de Walter White era importante para mim, e eu queria ir até o final. E fui. Demorei, mas fui.

Crédito: Ursula Coyote
Cena do último episódio de Breaking Bad, “Felina”

Eis então o aspecto particular que eu gostaria de comentar: o tempo de consumo (ou de “leitura”, considerando que a obra audiovisual também é um texto). De certa forma, esse é um assunto em voga, que tem sido bastante falado por conta dos novos modelos de acesso e consumo às séries de TV. Mas penso que há algo mais subjetivo nesse fenômeno do que as tentativas de entender tendências dão conta de explicar.

Independente da disponibilidade dos episódios, quem decide quando e quantos assistir é o espectador. Podemos argumentar sobre como algumas séries quase “te obrigam” a assistir o episódio seguinte, mas, no frigir dos ovos, a escolha de continuar a narrativa é sua – e o mesmo vale para virar a página, arriscar a próxima fase, não pausar o filme etc. Diante da caixa de biscoitos amanteigados aberta, há quem prefira comer logo um tanto de uma vez, e há quem considere melhor ir comendo aos pouquinhos, um hoje, outro amanhã, talvez dois na sexta e assim vai.

Por outro lado, talvez desconsiderar o poder que o sabor do biscoito exerce sobre cada pessoa seja menosprezar demais a sua capacidade de interferência sobre nós (ou hipervalorizar nossa capacidade de agência e autocontrole). Porque certos biscoitos fazem isso com a gente, eles praticamente nos obrigam a morder mais um pedaço. Certas séries também. Aí vai do talento de cada confeiteiro, mas entram também características subjetivas de cada espectador.

Breaking Bad era meu abismo, me afastava e me atraía. Mas, para muita gente, a série só atraía, e para outros tantos, só afastava. E, individualmente, há graus de atração e afastamento que não dá para medir. Nesse sentido, a questão parece mesmo se orientar por um viés subjetivo, ainda que não se restrinja simplesmente à vontade e às escolhas do sujeito. A leitura (ou o assistir) é condicionada pelas marcas pessoais do leitor (ou espectador), mas, ao mesmo tempo, é preciso considerar também a capacidade que a narrativa tem de sensibilizar essa pessoa.

E, nesse processo todo, será que é só o tempo de “leitura” que está em jogo?

Sei que nesse mundo de disponibilidade instantânea e consumo intenso, longas pausas propositais podem parecer démodé ou desnecessárias. Mas as narrativas não vivem somente no tempo em que as consumimos. Há algo em operação também durante o nosso afastamento. Isso me parece perceptível em qualquer outro produto cultural, como um romance de muitas páginas ou um jogo longo de videogame, mas talvez as séries de TV, justamente por suas características de produção e veiculação, tornam-se lugares bem propícios para observamos essa ação da narrativa longe do ato de leitura em si.

Para aqueles que acompanham uma série em dia, há um tempo de espera que é incontornável. Mesmo quando todos os episódios de uma temporada são disponibilizados de imediato, como tem sido de costume na Netflix, chega uma hora que o conteúdo se esgota e é preciso esperar uma próxima leva. O que acontece com a narrativa, em nós, durante esse hiato?

Crédito: Ben Leuner
“Vai dar conta de assistir ou não, mané?”

Quando comecei a ver Breaking Bad, a série ainda estava em andamento. Entretanto, eu só fui concluí-la em 2017, quatro anos depois da transmissão ao vivo do último episódio, em setembro de 2013. Nesse intervalo, eu certamente poderia ter assistido os episódios remanescentes com mais avidez, mas a demora não retirou a potência da série sobre mim. Pensando agora, talvez tenha até me dado tempo de criar outras interpretações para a trama, de buscar outros significados para tudo aquilo que eu havia assistido.

A narrativa vive um tempo dentro da gente que não é só o tempo de leitura, e me parece que essa é uma das condições mais relevantes para pensarmos o impacto que certas séries provocam na gente. Claro, é plenamente possível que uma minissérie de quatro episódios gere um buraco maior no seu peito do que oito temporadas de uma sitcom. Mas não dá para desconsiderar a força exercida pela permanência. O tempo de uma narrativa não está somente no período em que estamos efetivamente lendo-a ou consumindo-a, mas também nos pensamentos que lhe dedicamos depois da fruição. E para projetos de longo prazo, como uma série, esse tempo parece ser algo muito particular, da relação que cada espectador estabelece com aquela trama.

Na prática, isso significa dizer, entre outras coisas, que não existe um tempo “correto” de apreciação. Tudo depende da subjetividade de cada espectador, dos elementos que formam aquela narrativa em específico, e das relações que se estabelecem entre essas duas partes.

No caso de Breaking Bad, aqui particularmente, o processo foi extremamente esporádico, constantemente interrompido, ainda assim marcante. Game of Thrones, outra de minhas séries favoritas, também já se tornou um projeto de longo prazo: lá se vão sete anos acompanhado as tramas de Westeros, desde a primeira temporada, em 2011. E a cada ano, o prazer de assistir uma temporada nova e a angústia de esperar meses e meses de novo pela próxima. Por outro lado, Freaks and Geeks, com seus míseros 18 episódios (nunca vou entender porque cancelaram essa), durou apenas alguns dias para ser assistida, mas vai ficar para sempre comigo.

Certamente, vivemos em uma época na qual as tecnologias disponíveis favorecem – praticamente estimulam, na verdade – o consumo voraz e impaciente das séries, sejam elas novas ou antigas. Mas talvez a gente não precise aderir a isso. Deixar que a narrativa da série aja sobre a gente longe do contato com a tela pode ser também uma forma de se envolver. O fascínio, o querer saber o que vem depois, não precisa necessariamente ser satisfeito de imediato. Quando ele existe, está criada a força que nos faz voltar. Esse tempo de ir e vir, consumir, apreciar, distrair-se e refletir é particular de cada um, e sempre renegociado em cada novo contato com a série. Mas, nesses tempos de hiper disponibilidade e binge-watching, talvez valha a pena não apenas correr para terminar logo a série atual, mas também considerar a possibilidade de vivê-las como projetos de longo prazo.

4 comentários em “Séries como projetos de longo prazo

  1. Ótimo texto, Igor! Esse assunto é bem interessante, e me pego pensando sobre a questão de consumo das séries também. Particularmente, acho ótimo ter todos os episódios disponíveis para assistir, justamente pela possibilidade de definir o meu ritmo – e não porque quero ver tudo de uma vez. Não sou fã de maratonas. Como vc disse, acho importante ter o tempo de deixar a narrativa “assentar”, longe da tela. Mas, claro, isso varia conforme a série. Só não quero que meu ritmo seja definido pela competição de “quem vê mais rápido”, como acontece bastante.

    “Existe, portanto, algo nessas narrativas que faz com que a gente continue voltando a elas” >> O Umberto Eco, por exemplo, destaca que um dos aspectos que nos fascina nas séries é o do retorno ao familiar, o encontro com os mesmos personagens, lugares e situações, seguidamente. Ao mesmo tempo, essa repetição envolve também a inovação, que brota em diversos níveis da narrativa.

    Ah, e se gostou da questão cíclica da trama, vai curtir True Detective!

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  2. Ótimo texto, Igor! Esse assunto é bem interessante, e me pego pensando sobre a questão de consumo das séries também. Particularmente, acho ótimo ter todos os episódios disponíveis para assistir, justamente pela possibilidade de definir o meu ritmo – e não porque quero ver tudo de uma vez. Não sou fã de maratonas. Como vc disse, acho importante ter o tempo de deixar a narrativa “assentar”, longe da tela. Mas, claro, isso varia conforme a série. Só não quero que meu ritmo seja definido pela competição de “quem vê mais rápido”, como acontece bastante.

    “Existe, portanto, algo nessas narrativas que faz com que a gente continue voltando a elas” >> O Umberto Eco, por exemplo, destaca que um dos aspectos que nos fascina nas séries é o do retorno ao familiar, o encontro com os mesmos personagens, lugares e situações, seguidamente. Ao mesmo tempo, essa repetição envolve também a inovação, que brota em diversos níveis da narrativa.

    Ah, e se gostou da questão cíclica da trama, vai curtir True Detective!

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    1. Valeu pelo comentário, Felipe! Também sinto esse incômodo do “quem vê mais rápido”, ou do “preciso matar isso de uma vez no fim de semana”, e simplesmente não funciona para mim. Não faz sentido dizer como os outros devem consumir tal produto narrativo, mas eu acho que vale pelo menos parar para refletir um pouco sobre a forma como esse consumo tem se dado.

      No mais, imagino que várias das minhas ideias acima apareçam no pensamento de autores importantes, como o Eco. Mais uma razão para correr atrás da obra deles e estudar mais, né?

      Vamos ver se True Detective rende um post depois também hehe.

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